Um Contra Todos

O “um-contra-todos”

By in Quotidian, World on March 23, 2020

Tudo começou no dia 1 de Dezembro de 2019, crê-se. Num mercado de marisco e animais selvagens de Wuhan, no coração da China, um novo vírus que provavelmente terá sido originário de um morcego e se tenha servido de um pangolim como intermediário, infectou o primeiro hóspede humano, iniciando um processo que, em poucos dias, levou várias pessoas com sintomas de uma pneumonia desconhecida a vários centros de saúde da cidade, até à declaração de pandemia global a 11 de Março de 2020 pela Organização Mundial de Saúde, via Twitter.

Variando um pouco no tempo de resposta ao conhecimento científico e na consequente urgência de “achatar a curva” que permitisse (e venha a permitir) aos sistemas de saúde darem uma resposta adequada a casos que levem a internamentos e cuidados intensivos, os poderes políticos foram implementando medidas de actuação e resposta, decretando na generalidade um estado de emergência global.

Em casa, confinados a lidar com o stress que é viver em quarentena, é altura de começarmos a dar valor ao essencial, e a pensar na vida que queremos viver depois de ultrapassarmos um dos maiores desafios biológicos que enfrentámos, enquanto espécie.

Nestas introspecções, vemos que as discussões e disputas raciais se desvanecem, ficando claro que, para o coronavírus, somos todos iguais. Do mesmo modo, religiões, convicções políticas, clubismos, orientações sexuais, todas essas segmentações feitas pelo Homem são invisíveis para a segregação que o vírus faz na sua escolha e estratégia de ataque.
O intrépido e indesejado virus não tem cérebro nem actividade específica quando vagueia à procura de um novo hóspede, mas parece mostrar essa inteligência.

Os três factores que realmente obstam à sua disseminação parecem ser, diz a ciência:

  1. um bom sistema imunitário,
  2. um alto nível de higiene pessoal,
  3. a capacidade de seleccionar e recolher informação objectiva, de fonte fidedigna, para adopção de comportamentos pessoais e colectivos (sociais) adequados.

O que é facto é que, enquanto o coronavírus anda por aí, o planeta agradece, em simultâneo, a diminuição drástica das acções intrusivas que a espécie humana perpetra quotidianamente, oferecendo em troca espectáculos de rara beleza, como o regresso de cisnes e golfinhos a Veneza ou o das baleias cinzentas à costa do Oregon, não sendo obra do acaso a melhoria generalizada da qualidade do ar nas grandes cidades de todo o mundo.

Quem não agradece são os mercados bolsistas, os produtos financeiros estruturados, os derivados, essas coisas que os fãs do dinheiro foram criando e que o advento dos computadores transformou em gigante impossível de acompanhar ou compreender na totalidade pelo comum dos mortais (e mesmo, pelos ditos e/ou auto-intitulados especialistas).
Pois, não agradecem… porque estão ao abandono.

Esta mudança de foco está e ser rápida e geral.
Estamos a ter comportamentos verdadeiramente mais humanos.
E se isso tivesse continuidade?

Estaremos prontos a virar-nos para os valores humanos mais importantes, os que se criam e cultivam em pequenos círculos familiares, de proximidade real?
Estaremos prontos para usar a tecnologia e diminuir as deslocações de trabalho – eventualmente desnecessárias – a centros urbanos sobrepopulados (e, por isso, cada vez mais com valores exorbitantes por m² para venda e arrendamento)?
Estaremos capazes de ponderar que os luxos da ocupação do espaço aéreo (por helicóteros, aviões e até satélites), em frenética actividade e trânsito, estão muito para lá do razoável e necessário?
Estaremos capazes de aprender e compreender as vantagens de uma vida longe das luzes e buliço de uma cidade, tornando irresistivelmente atraente a troca de 100 m² “fatiados” numa construção vertical de betão por um espaço tendencialmente térreo, com quintal e pequena horta?

Pesando os dois pratos da balança, o que é que “os mercados” fizeram por nós nesta quarentena (além de dizerem que estão em queda, em crise, e a necessitar de liquidez e recapitalizações)?
Nada. Não fizeram nada.
Estamos sós. Isolados. Entregues a nós mesmos.
Estamos, ao mesmo tempo, autónomos para pensar e decidir.

O “um-contra-todos” que vivemos hoje não é o de um vírus contra todos nós, porque a biosfera vai muito para além da humanidade e o coronavirus é apenas um, não muito diferente do SARS ou MERS, é natural e existe preenchendo o seu tempo e espaço como a quase infinidade de vírus e bactérias que “trabalham” no sentido do equilíbrio biodiverso, por muito impopular que sejam as suas acções (ou os resultados visíveis das mesmas).

O “um-contra-todos” que vivemos é o da espécie humana a tentar derrotar a natureza que o criou e tudo lhe deu para fazer prevalecer a sua lei artificial, ao invés de tentar aproveitar, acarinhar aquela que, apesar da contínua agressão, continua a ser naturalmente disponível e generosa.

É certo que se confirmou que o mundo não estava pronto para uma pandemia mas o que faremos depois, cabe a cada um, cabe às acções e esforços conjuntos que fizermos olhando menos ao que nos diferencia e mais ao que nos une, depois desta enorme lição de vida que é o olhar a morte de frente.

 

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