Salvador Allende, 1973

Apenas mais um dia 11, esquecido entre outros

By in Politics on September 11, 2018

A cada 11 de Setembro que passa (desde 2001), recordo o aniversário do sangrento dia que os Estados Unidos querem esquecer e do qual são sobejamente conhecidas as responsabilidades da CIA no seu desfecho.
Refiro-me, claramente, aos 45 anos que se completam desde 1973, do dia em que no Chile foi assassinado Salvador Allende e, em seu lugar, foi colocado o ditador Augusto Pinochet como governante, ainda que a subida ao poder só tenha ocorrido formalmente no final de 1974.

A história tem destas coisas, os eventos mais mediáticos têm o condão de (tentar) fazer esquecer outros que são, de algum modo, colocados “debaixo do tapete” da atenção do público, sem que sejam menos importantes ou relevantes para a história mundial.

Em plena Guerra Fria, o Chile socialista vivia um período de democracia e estabilidade política havia décadas, com eleições democráticas sucessivas desde 1932, mas o facto de o Congresso estar em minoria face à oposição aliado ao embargo comercial imposto por Richard Nixon, levantava alguma agitação social e política no país.

Nesse 11 de Setembro de 1973, Augusto Pinochet, recentemente promovido a Chefe das Forças Armadas– a 23 de Agosto desse ano – ordenou a deposição do presidente Allende e do governo da Unidade Popular, estabelecendo uma junta que viria a suspender toda a actividade política no país (especialmente a de esquerda) e o regime militar tomou o poder, contando com o quase imediato apoio oficial americano.

Salvador Allende, assassinado em 11 de Setembro de 1973

Salvador Allende, assassinado em 11 de Setembro de 1973

Quando, apenas 5 dias depois, Victor Jara foi assassinado com um tiro de roleta-russa no Estádio Chile onde centenas de outros prisioneiros políticos estavam confinados desde o dia 12, já era claro o caminho que o país estava a percorrer.
Nesse mesmo Setembro, quando o já hospitalizado Pablo Neruda morreu (de cancro da próstata), o regime escolheu ignorar o luto nacional pelo homem que tinha sido Prémio Nobel da Literatura em 1971, “mas” também apoiante da candidatura presidencial de Allende e Embaixador em França entre 1970 e 1972.

Quarenta anos depois do golpe, em 2013, Isabel Allende (cujo pai era primo direito de Salvador), disse à Amnistia Internacional:
Nesse dia enterrámos não só o poeta, mas também Allende, Jara, e centenas de outras vítimas.
Enterrámos a nossa democracia e enterrámos a liberdade.

É fácil encontrar mais “onzes de Setembro” sangrentos na história, como o de 1943 em que começou a liquidação de prisioneiros judeus nos guetos de Minsk e Lida (na actual Bielorrússia), na II Guerra Mundial, o de 1714 em que terminou o Cerco a Barcelona e a definitiva integração da Catalunha em Castela (Espanha), ou até um outro no Chile, em 1541, quando a recém-fundada Santiago foi destruída por um grupo de tribos liderada por Michima Lonco.

Estarei a esquecer-me de um 11 de Setembro relativo a Nova Iorque? Não, claro que não.

Mas já lá vão mais de quatro séculos desde que, em 1609, foi feita a descoberta de Manhattan e do seu povo indígena pelo navegador Henry Hudson (que havia de dar nome ao rio).
Mas, como se sabe, notícias alegres e sem sangue não dão direito a destaque de capa.

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