Cheering at the sunset

Será que vamos viver centenas de anos?

By in Nature, Quotidian, Technology on August 1, 2016

A expectativa de vida nos países desenvolvidos passou de uns meros 46 anos em meados do século XIX a uns notáveis 85 anos na primeira década do século XXI, o que representa um aumento de 84% (ou de 39 anos). Isto é verdade, se considerarmos o seu valor absoluto, a uma taxa de crescimento aproximadamente linear de três meses por ano entre 1840 e 2007 [fonte: NIH].

Tendo em conta os avanços na investigação que temos vindo a observar em biotecnologia, será que devemos esperar viver mais de 100 anos em breve? Ou, melhor ainda, viver para sempre?

Desde os primórdios que o ser humano tem ansiado por um vida extremamente longa, idealmente eterna. A busca da imortalidade é tão antiga quanto a própria história, e tem sido amplamente documentada ao longo dos tempos, bem como a criação de seres mitológicos e entidades que possuam essa característica.

No mundo real, e com o propósito de evitar a morte por se ser imune às suas causas ou capaz de as reverter (envelhecimento, doença, trauma, ou mudanças ambientais) e prolongar a vida além dos 100 anos, mantendo as capacidades físicas do que somos/éramos aos 20 anos, temos de nos concentrar em (pelo menos) dois aspectos principais: 1) do corpo, e 2) a mente.

Com o advento da impressão 3D, avanços significativos têm sido feitos no bioprinting 3D de tecidos vivos, como músculos, órgãos e ossos [fontes: IEEE | The Verge], embora os cientistas ainda estão enfrentando desafios com a irrigação sanguínea dos tecidos [fonte: Science Alert]. A impressão de tecido cerebral também está a ter os primeiros passos [fonte: The Guardian] bem como o estudo do DNA de outras espécies, tais como alforrecas, que já se sabe poderem reverter o seu processo de envelhecimento, regenerando as suas próprias células em caso de doença ou trauma [fonte: Mother Nature Network]; assim, é expectável estarmos a discutir a (re)construção de tecido vivo, ou até mesmo sua engenharia, num futuro próximo.

A segunda parte da equação é o que os cientistas chamam de “upload da mente”, um processo onde os dados armazenados numa memória biológica são transferidos para outro dispositivo, seja ele um disco rígido ou, idealmente, um outro cérebro. Pelos padrões de hoje, um PC portátil comum pode ter uma drive de 1 terabyte (cerca de 1 bilião de bytes ou 1000 gigabyte – cientificamente, o número correto é de 1024 x 1024 x 1024 x 1024 byte = 1099511627776 byte) enquanto a capacidade estimada do cérebro humano é de cerca de 2,5 petabyte, cerca de 2500 terabyte [fonte: Scientific American].

O cientista, inventor, escritor e futurista Ray Kurzweil – co-fundador da Singularity University, bem como Diretor de Inteligência Artificial da Google – previu que na década de 2020, a maioria das doenças serão curadas com nanobots, por estes se tornarem mais inteligentes do que a tecnologia médica; ele mesmo sugere que, nos anos 2030, será possível fazer download da informação na nossa mente/consciência para outros dispositivos e/ou cérebros [fonte: Singularity Hub].

Countdown to Singularity

Countdown to Singularity

Com esta nova era da pesquisa e desenvolvimento biotecnológicos em curso (genética e medicina regenerativa, nanotecnologia e microbiologia), aliada ao facto de que várias iniciativas privadas/independentes estejam também em andamento – como aquelas de bilionários da tecnologia tais como Peter Thiel (co-Fundador do PayPal e primeiro investidor do Facebook), Sergey Brin (co-fundador do Google), ou Larry Ellison (co-fundador da Oracle), que têm investido quantias consideráveis ​​de dinheiro em projetos que vão desde a pesquisa biofarmacêutica a genômica às terapias com células estaminais [fonte: The Guardian] –, tudo isto faz com que seja previsível ter os processos de preservação/restauro/construção de células do corpo e da transferência de dados cerebral completamente implementado nas próximas décadas, tornando-nos todos candidatos para esta “bioengenhada” vida eterna.

É também vital que, junto com esses desenvolvimentos científicos, as questões éticas sejam endereçadas adequadamente (questões de superpopulação, distribuição equitativa de oportunidade, etc.), enquanto cresce a compreensão de que desenvolvimentos científicos em paralelo, nomeadamente no campo da Inteligência Artificial – e a hipotética “singularidade tecnológica” [fonte: Wikipedia], onde as máquinas/computadores/redes se tornem autónomos, rapidamente superando a inteligência humana e agindo para além do seu controlo –, possam levar a Humanidade à auto-destruição.

 

NOTA: a notação americana indica que um bilião equivale a 1000 milhões; em Portugal, referimo-nos a um bilião quando queremos indicar um milhão de milhões, ou 1000000 milhões (que seria considerado nos EUA como sendo 1 trilião).

 

Publicação original: P3.

Hugo Salvado @ P3

Hugo Salvado @ P3

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