Adeptos do Benfica

Fátima, fado… e Benfica

By in Sport on April 23, 2014

O Benfica garantiu que o seu 33º título de campeão ofuscasse o 40º aniversário do 25 de Abril, que certamente não encherá o Marquês nem a Boavista e, também é certo, não encherá a programação da TV e rádios como o verdadeiro “ópio do povo” fez e ainda faz.

Este facto é interessante do ponto de vista empresarial e curioso do ponto de vista sociológico.

Em primeiro lugar, a empresa/marca Sport Lisboa e Benfica está de parabéns. Este sucesso demonstra que a perseverança de quem, apaixonada e competentemente as gere, traz os seus frutos no médio/longo prazo.

Recapitulando por um momento o recente historial, há 12 meses o futebol do Benfica tinha mais um ponto do que este tem e estava também na Liga Europa e na Taça de Portugal. Sem que nada o fizesse esperar, iria entrar num período de quatro meses de grande agitação e desilusão (perda do campeonato, após empate caseiro com o Estoril e derrota no Porto, perda da Liga Europa, com derrota frente ao Chelsea, perda da Taça de Portugal, com derrota frente ao Vit. Guimarães).

Chelsea - Benfica (Europa League 2013)

Chelsea 2-1 Benfica (Europa League 2013, final)

 

Após a derrota na 1ª Jornada desta época, frente ao Marítimo, o fecho dessa “travessia do deserto” só ocorreria no tempo de descontos do segundo jogo da época quando, no período de descontos, o Benfica “deu a volta” ao Gil Vicente, passando de 0-1 para 2-1 (golos aos 91 e 92 minutos de jogo) e iniciando aí uma notável sequência desportiva (22 vitórias e 4 empates) que o tornou virtual campeão a duas jornadas do fim.

Em termos de gestão empresarial, a tomada de decisão de manter o treinador durante os períodos negativos, é sinal de boa planificação, de confiança, de imunidade às pressões internas e externas, o que é difícil e raro numa organização desportiva, especialmente desta dimensão.

E isto é verdade, mesmo numa época como a passada, em que o sabor amargo da derrota final não se pode sobrepor ao que foram as boas opções de gestão durante o ano. Se falarmos apenas em futebol e na liga, vejamos a classificação média dos cinco anos de colaboração entre Luis Filipe Vieira e Jorge Jesus, onde é patente que apenas FC Porto e Benfica se encontram num patamar de excelência, com médias superiores a 22 vitórias e 70 pontos por ano (em 30 jogos, ou 90 pontos possíveis), deixando toda a concorrência a grande distância.

Em termos de gestão, o dissabor de 2012/13 corresponde ao melhor resultado efectivo dos cinco anos (apenas eventualmente superado pelo do presente ano, caso o Benfica vença o Setúbal na Luz e o FC Porto no Dragão).

Benfica 2-0 Porto (Liga 2014)

Benfica 2-0 Porto (Liga 2014)

 

À luz desta observação, fica claro que a Gestão de Topo fez muito bem em continuamente apoiar a equipa técnica e toda a estrutura do futebol, pelos continuados bons resultados obtidos. Terá havido a tentação de substituir a equipa técnica num momento menos bom? Certamente que sim, mas essas decisões tomam-se friamente e não no calor do jogo. Paixão e emoção sem limites? Isso é privilégio dos adeptos.

Se o FC Porto disputou e conquistou para si a hegemonia do futebol português desde o final dos anos 80, o Benfica – apesar dos títulos pontuais de 1994 e 2005 – só agora é novamente candidato a essa disputa.

Em termos de ecleticismo e de marca, a empresa-Benfica ocupa, à data de hoje, ao nível do futebol masculino, o 1º lugar em séniores, júniores, juvenis e iniciados. É líder também dos campeonatos de futsal, basquetebol e voleibol, sendo 2ª classificada no hóquei em patins (onde é ainda detentora dos títulos de campeã europeia, tendo terminado a dinastia de 10 vitórias do Porto no ano anterior) e também no andebol.

Não esquecer ainda o impacto que a BenficaTV teve com a aquisição de direitos de transmissão da Premier League inglesa e dos próprios jogos do Benfica em casa.

Hoje, esta face mais visível do sucesso é um reflexo de um processo que se iniciou no pós-Vale e Azevedo, quando o regresso às modalidades amadoras e à formação se tornou prioritário, quer para Manuel Vilarinho, seu sucessor, quer para Luis Filipe Vieira, actual presidente.

Luis Filipe Vieira no balneário do Benfica

Luis Filipe Vieira no balneário do Benfica

 

Esta evolução levou o clube a ser o que mais sócios tem a nível mundial, bem como a ser o que maior share de adeptos tem no seu país.

Pode não parecer, mas o objectivo da minha crónica não é o laudo à instituição.

 

Amor desproporcionado

Fazendo uma observação crítica, seja pela qualidade de resultados, seja pelo clubismo histórico e tradicional, pela preponderância que tem na comunicação social (além da TV, todos os jornais “sabem” que uma capa que tenha o Benfica é uma capa que vende), também assim se mostra o quão desproporcional é o nosso país no amor ao desporto-rei. A diferença é que, por essa Europa fora, enchem-se estádios e, simultaneamente, também salas de teatro, ballet, exposições, etc.

Assunto já sobejamente falado/discutido, a dimensão dos nossos estádios é claramente excessiva para o país que temos; já nem falando dos casos gritantes (de abandono, por mau planeamento/dimensionamento) do Estádio do Algarve, de Leiria ou de Aveiro, nós temos um país com 10 milhões de habitantes e estádios para uma população de 500 milhões ou mais; na Alemanha há uma dezena de clubes com médias de assistências a rondar os 50.000 por jogo (durante toda a época) e o seu poder financeiro dá origem a fenómenos como o do “histórico” Colónia, no jogo em que garantiu o regresso à Primeira Divisão alemã, em que teve 50.000 fãs a encherem o estádio.

Em Portugal, vive-se uma “clubite” (sim, é uma doença) que resulta num anormal amor aos “três grandes” em detrimento de tudo o resto, sejam os outros clubes, sejam os outros desportos, seja o social, o cultural ou o político.

Ao contrário da maioria dos outros países, é frequente termos um conimbricense a torcer, em primeiro lugar, por um clube que não a Académica de Coimbra… pois, lá fora, por muito grande que o Real Madrid ou o Barcelona sejam, se for jogar a Pamplona, vai ter os seus adeptos em minoria face aos do Osasuna.

Festejos do Benfica no Marquês de Pombal (Maio de 2014)

Festejos do Benfica no Marquês de Pombal (Maio de 2014)

O que aconteceu no Marquês de Pombal no domingo é sintomático de uma população desfasada da realidade, que busca no festejo efémero (de conquistas de terceiros) a realização pessoal que lhe é barrada pelos caminhos da meritocracia.

O fenómeno-futebol continua a fazer parar o país, mais do que outros temas que, de facto, têm muito maior impacto nas nossas vidas.

 

 

Publicação original: P3.

Hugo Salvado @ P3

Hugo Salvado @ P3

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